Ovo no Microondas


Aos oito anos de idade, eu tinha como grande objetivo ter a possibilidade de brincar com as crianças sem a barreira das grades de casa, correr com elas, aprender a conviver e jogar videogame sentada no chão da sala de suas casas. Não me faltava convite, muito menos tempo, porque se metade do dia já era livre, com os constantes cancelamentos de aula na escola pública, a vida era um eterno feriado.

Mas não fazia diferença ser feriado ou não, porque independente do dia, a rotina sempre foi decidida com base na preocupação dos pais sobre tudo. Uma obsessão pelo pessimismo e superproteção que fez se formar uma prisão invisível à minha volta. Minha criação foi baseada em tentativas contínuas de me fazer acreditar que sou tão frágil quanto a gema de um ovo, e que sem uma clara e uma casca, eu seria facilmente esmagada.

Foi aos oito anos que eu me vi em uma situação em que pensei que havia matado minha mãe. Jogada em meus braços como se tivesse apagado de vez, gritei por ela e o desespero me sacudiu completamente. O estopim havia sido uma discussão motivada pelo meu objetivo de criança. Mas o mundo é perigoso demais, e era um absurdo que eu pedisse para colocar os pés na calçada, que eu andasse pela rua e ainda mais na companhia de moleques que conhecia desde minhas primeiras lembranças. Era uma afronta uma filha ser tão ingrata, tendo a maravilhosa oportunidade de ficar em casa olhando para o teto enquanto a televisão reprisava algum programa sem público infantil.

Minha mãe fingiu um AVC. Eu acreditei na época, não sabia bem como um AVC funcionava, e a intenção dela ao atuar daquela maneira era fazer com que eu me sentisse tão culpada que acatasse a qualquer comando: “Caramba, eu quase matei minha mãe de nervosismo”. Hoje ela ri disso. Ainda não acho graça.

Os pais discursam todos os dias sobre suas preocupações. Idosos, eles não podem fazer mais nenhuma filha para ocupar o meu lugar caso algo aconteça. “É o nosso tesouro”, e como tal, acho que estou em um baú chaveado desde o nascimento. Quando pequena, eu devo ter brincado na calçada apenas umas três vezes, e ouvindo gritos me chamando para dentro de casa, porque o mundo é perigoso demais. Não podia receber amiguinhos da escola e nem visitá-los porque, por não conseguir brincar no recreio como os outros já que precisava atender às exigências de minha mãe, claramente não saberia me relacionar com outras crianças e isso também seria um problema. Criada para ser alguém que não sabe se defender.

Não há correntes visíveis me segurando, tenho a chave das grades de casa e consigo sair para vir à faculdade e um evento que outro por mês. Oficialmente, é possível me considerar mais uma cidadã livre nas ruas. Eles não precisam de nada material para me manter atada. O que me prende é essa manipulação que vem de tempos. Dia após dia, durante estes dezenove anos, vivendo nesse ovo.

O que acontece quando você coloca um ovo no microondas sem perfurar a gema é que ele explode. A pressão interna aumenta demais. O que acontece ao ser colocada no mundo sem poder passar por experiências tão simples por uma hipótese de que coisas ruins irão acontecer também leva a uma explosão. Ela vai acontecendo em um processo mais lento, mas o desespero para se libertar do invólucro cresce a um ponto que o estrago acontece mesmo dentro daquela que deveria ser a proteção. Os pais não querem deixar que nada chegue, perfume, faça sentir dor, mas a dor sempre virá da maneira que eles não cogitam, que é não saber estar no mundo.

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Ships físicos e métodos peculiares

Certa vez, no primeiro ano do colegial, Yas e eu estávamos muito entusiasmadas com o novo tópico de física. Algo como movimento uniforme variado, não lembro bem. A professora não era muito de enfatizar os nomes das coisas. Mas sabíamos que envolvia força, massa e aceleração.

Sempre procurando métodos de estudo que envolvessem nossos gostos pessoais ou qualquer coisa engraçada, enfiei logo meu gosto pela boyband alienígena de lobos que fazem remake de baixo orçamento do Crepúsculo esquecendo de vampiros, EXO.

Yas não era e nem é fã deles, mas me ouvia com atenção. Estudamos usando o lindinho ship XiuChen e uma gambiarra imaginária que teria feito Kris voar em um dos teasers. Não tenho nada anotado desses dois usos, mas há um em especial que fiz para uma outra amiga, Vivicos, maninha, e enviei pelo Facebook.

Pode estar de uma simplicidade estúpida, mas pelo menos arrancou uns risinhos enquanto eu estudava. E sentimentos pelo gostoso ship SeXing. Até o nome disso é sugestivo, puta que pariu.

 

Segue a questão:

EXO voltou ao dormitório após o Mama. SeHun e Yixing dirigiram-se diretamente ao banheiro para tomar um banho, já que nenhum dos dois se incomodava em dividir o chuveiro, acostumados com os banhos coletivos do grupo. O banho seguiu com SeHun tentando, discretamente, observar o corpo alheio. Tentava esconder, de alguma forma, a ereção que se formava em seu baixo ventre. Yixing, por sua vez, aparentemente não parecia estar reparando em nada, apenas cuidando de sua higiene. Após o banho, foram até o quarto para vestirem-se, já que não haviam levado suas roupas para o banheiro. Ao adentrarem o recinto, o mais novo não se conteve e rapidamente aproximou-se do menor, fitando-lhe os lábios de um jeito voraz. Sem dar chance ao outro esboçar uma reação àquela situação, empurrou-o com uma força de 15N, fazendo com que caísse sobre a cama. E no momento seguinte, Yixing finalmente reagiu: Correspondeu lascivamente em um ataque aos lábios alheios.

Considerando que a massa de Yixing é de 60 kg, qual a aceleração do corpo?

Talvez mais uma (mini)fanfic pwp bem genérica, mas já serviu para alegrar mais um daqueles dias de 2013. Alterei algumas coisas que estavam incorretas.

A fórmula foi essa aqui. Fiz isso apenas para chegar no cálculo e:

 

F=m.a

15 = 60.a

15/60 = a = 0,25 m/s²

Na prova, Yas e eu erramos apenas uma ou duas questões. Aqueles foram nossos tempos dourados. O que aconteceu no simulado da Vivicos eu não sei, mas pelo menos sua recomendação de usar SeXing me foi muito interessante.
Esta é uma postagem meio nada a ver com nada, quase sem propósito e até meio vergonhosa. Mas por já ter terminado o ensino médio e esquecido 99% dos conteúdos, pode ser valioso resgatar uma pérola e lembrar de algo.
Chega-se à conclusão:
Às vezes o indivíduo está louco nos grupos favs.

Rotina Monocromática

Rotina Monocromática.png

Logo de manhã vestia o velho casaco vermelho
Cuspia seus pensamentos ácidos
Obsessivamente encarava a si mesmo no espelho
Estampado na face, o desespero clássico

O chá da tarde era de frutas vermelhas
Acompanhado por bolo coberto de morangos
Logo depois saía e sentava-se sob uma das macieiras
Na memória abafava antigos prantos

Com ira o rosto tornava-se rubro
Sua fala tomava tom amargo
E no final do mês de outubro
Só o distanciamento para acalmá-lo

Longe de tudo, entre flores vermelhas
Observava ao redor com serenidade rara
Do chão até às telhas
A atenção aos detalhes não era falha

Mas como novas memórias não apagam as do passado
Com movimentos calmos na banheira
Certa noite o vermelho escorreu pelo ralo
Deu adeus à uma vida pintada de escarlate, ela inteira
— “Acabou-se o meu  prazo”.

Entre o fracasso e o dom, dança

Amo demais, durmo de menos
Quem amo? A dança
Mas não sei dançar, fico desapontada
Queria que houvesse esperança

Me ensinarias a dançar? Deixe apoiar-me em teus pés
Prometo não te machucar, mas sabe
Para mim é difícil como para ti não é

Nascestes com o dom, tu sabes
Teu corpo fala, não precisas dizer com a voz
Enquanto eu sou um desastre, já vistes
Sou dona de com minhas pernas dar vários nós

Queira dançar comigo, dar-me aulas
Tu és uma obra de arte, já repeti tantas vezes
Enquanto eu sou museu, sou plateia
Quero te ver dançando pela eternidade de meses.

O Querido

Cantos caídos de seus olhos
Olhos vidrados na janela de vidro
O olhar alheio passa percebido
Causa até um arrepio
Claro que você o quer

Aqueles ombros largos
A grande estatura
Cabelos avermelhados
Lábios em processo de abertura
E àquela altura, quem não o quer?

Seria ele um deus grego
Que de grego não tem nada
Talvez só o apelo
Aquele tipo físico que deixa qualquer pessoa encantada
O querendo por inteiro?

Agora até eu o quero
Aqueles lábios me chamaram a atenção
Mas sei que você os viu primeiro
Então manterei a educação
Outro dia aparecerá alguém querendo roubar meu fôlego e coração

Corra até ele logo
Antes que outra pessoa o faça
Alguém que não disfarça
Que aproveita sem medo
Porque querendo tanto, quem ficaria só de graça?

Adorar De Dar Dó

Queria ser quem tu adoras
Pois o adorador adorado por quem adora
Adornado de amor, sentimento duradouro
Dorme durante o dia num descanso dourado
Deita de braço dado
Doido dobrado
Duzentos beijos cadenciados

Duplo sentido desperta à madrugada
Dentro de cada um que adora
Endurece, torna febril como se estivesse doente
Demasiado quente
Dente com dente
Beijos pendentes
Pele agraciada

Te adoro como ninguém
Mas há gente demais no mundo
Generalizo de novo pelo meu bem
Te adoro mais que todos
Desde o dentista até o soldador de toldos
O eletricista te olha desejoso
Te desejo em dobro

Me adore
Das dores a de menos
Dentre tantas pessoas, sou a quase sem medos
O medo é de adoecer e delirar
Delírio diário
Parar na clínica para desequilibrados
Um mundo isolado
Sem que dances colado a mim depois do jantar

Adoração nada doentia
Saudável à noite, de dia
Madrugada da vida
Dor deliciosa
Ter-te demais, só dormindo
Sonhando com dança
Tendo de ti nada, acordado na desilusão
Mas com desconfiança
Há esperança pra quem continua a te adorar, apesar de não haver mudanças?

Meus amores não

Meus amores não me leem
Vivem muito ocupados
Eles vêm de tão longe
Estão calçando seus sapatos

Meus amores não me ouvem
Minha voz está perdida no ar
Poluição sonora
Não importa se eu gritar

Meus amores não me enxergam
Eu sou um pontinho em dez mil
Eles olham tudo de cima
Nem notarão se alguém sumiu

Meus amores não me entendem
Vêm de outra realidade
Falam palavras diferentes das minhas
A vida fez essa maldade

Meus amores não ficarão por aqui
Eles dão a volta ao mundo
São amores de mais um bilhão de pessoas
Que assim como eu sentem o encanto de tudo

Meus amores não param
Eles dançam
Suas vozes deixam as caixas de som
Meus amores cantam

Meus amores não deixam de amar
Têm seus próprios amores
Amam a música e a dança
Embora tanto esforço os gere dores

Meus amores não irão me amar
Porque não provei a eles que existo
Tudo o que faço é intraduzível
Mas por que será que ainda insisto?
Pois meu amor por meus amores se faz um sofrido e belo infinito.

Amo todo mundo, ninguém e você

Deixei de amar uma pessoa só
Amo a todos demasiadamente
Assim como há dias em que não amo ninguém
Deito me perguntando se isso é coerente

Como seria a vida sem amor?
Há dias em que costumo sentir que já é
Mas certamente depois de horas de torpor em tristeza
Cederei à verdade de que o amor se mantém de pé

Pelo menos há quem me ame
Em algum lugar por aí
Sou um ser bom para levantar alguém
Assim como também posso fazer cair

Caia em mim
Ceda aos meus encantos
Em cada canto desse mundo
Há espaço para se enfiar sob meus panos

Te amo mais que a carne
Amo mirar teu sorriso
Melhor brilho para os meus olhos
Me faz assumir o risco

Risque qualquer outra pessoa de sua lista
Ria comigo até o fim
Ranja teus dentes enquanto me tem
Faça um riacho de mim

Depois que amanhecer
Levante e deixe um bilhete sobre a mesa
Diga como foi a dose
E deseje tomá-la novamente como se fosse a cura de qualquer doença.

O Vivo Está Morto

Perdi o amor há um ano e meio
Esse alguém não morreu
Foi culpa dos meus tropeços
Deve estar mais vivo do que eu

Sou ser errante e confesso
Mas o perdão sempre me pareceu necessário
Apesar de alguns males
Por que fez o contrário?

Todos os dias lembro de alguém
Mas esse alguém não existe mais
Fiz questão de quebrá-lo
E assim, ser a mesma pessoa, esse alguém não foi capaz

É como se quem eu amei tivesse morrido
A ferida o tornou frio comigo como o Alasca
Dá até um arrepio de lembrar
E assim, do que eu conhecia, só sobrou a casca.

Bateu uma vontade

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Não encontrava site legal para postar meus textos, poemas, ou seja lá o que são as coisas que faço. Por isso, me disseram que fizesse um blog para tal, algo bem como quero. Assim, cá estou.

Ainda não sei usar esta plataforma, fui por muitos anos apenas usuária de blogger. Só que o pessoal mais perto de “profissional” e “sério” parece vir para o WordPress, e como quero enganar a mim mesma e a todo mundo de que sou alguém maduro e sério, por que não tentar? Alguém bem que poderia me ajudar com isso.

Finalmente comecei a sair do bloqueio criativo e do fundo do poço da falta de vontade, então nada melhor do que me auto-incentivar criando um blog para expor tudo isso. Não deixarei estipulado os tipos de coisas que serão aqui publicadas, pois nem eu mesma tenho noção de onde posso chegar. Talvez só um pouquinho. Mas definir limites é a pior coisa que se pode fazer, a menos que se queira chocar mesmo. Posso querer fazer isso também, não sei. Toda hora mudo de ideia. Fica vaga a minha explicação de intenções.

 

Beijinho.