Rotina Monocromática

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Logo de manhã vestia o velho casaco vermelho
Cuspia seus pensamentos ácidos
Obsessivamente encarava a si mesmo no espelho
Estampado na face, o desespero clássico

O chá da tarde era de frutas vermelhas
Acompanhado por bolo coberto de morangos
Logo depois saía e sentava-se sob uma das macieiras
Na memória abafava antigos prantos

Com ira o rosto tornava-se rubro
Sua fala tomava tom amargo
E no final do mês de outubro
Só o distanciamento para acalmá-lo

Longe de tudo, entre flores vermelhas
Observava ao redor com serenidade rara
Do chão até às telhas
A atenção aos detalhes não era falha

Mas como novas memórias não apagam as do passado
Com movimentos calmos na banheira
Certa noite o vermelho escorreu pelo ralo
Deu adeus à uma vida pintada de escarlate, ela inteira
— “Acabou-se o meu  prazo”.

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O Querido

Cantos caídos de seus olhos
Olhos vidrados na janela de vidro
O olhar alheio passa percebido
Causa até um arrepio
Claro que você o quer

Aqueles ombros largos
A grande estatura
Cabelos avermelhados
Lábios em processo de abertura
E àquela altura, quem não o quer?

Seria ele um deus grego
Que de grego não tem nada
Talvez só o apelo
Aquele tipo físico que deixa qualquer pessoa encantada
O querendo por inteiro?

Agora até eu o quero
Aqueles lábios me chamaram a atenção
Mas sei que você os viu primeiro
Então manterei a educação
Outro dia aparecerá alguém querendo roubar meu fôlego e coração

Corra até ele logo
Antes que outra pessoa o faça
Alguém que não disfarça
Que aproveita sem medo
Porque querendo tanto, quem ficaria só de graça?

Adorar De Dar Dó

Queria ser quem tu adoras
Pois o adorador adorado por quem adora
Adornado de amor, sentimento duradouro
Dorme durante o dia num descanso dourado
Deita de braço dado
Doido dobrado
Duzentos beijos cadenciados

Duplo sentido desperta à madrugada
Dentro de cada um que adora
Endurece, torna febril como se estivesse doente
Demasiado quente
Dente com dente
Beijos pendentes
Pele agraciada

Te adoro como ninguém
Mas há gente demais no mundo
Generalizo de novo pelo meu bem
Te adoro mais que todos
Desde o dentista até o soldador de toldos
O eletricista te olha desejoso
Te desejo em dobro

Me adore
Das dores a de menos
Dentre tantas pessoas, sou a quase sem medos
O medo é de adoecer e delirar
Delírio diário
Parar na clínica para desequilibrados
Um mundo isolado
Sem que dances colado a mim depois do jantar

Adoração nada doentia
Saudável à noite, de dia
Madrugada da vida
Dor deliciosa
Ter-te demais, só dormindo
Sonhando com dança
Tendo de ti nada, acordado na desilusão
Mas com desconfiança
Há esperança pra quem continua a te adorar, apesar de não haver mudanças?

Meus amores não

Meus amores não me leem
Vivem muito ocupados
Eles vêm de tão longe
Estão calçando seus sapatos

Meus amores não me ouvem
Minha voz está perdida no ar
Poluição sonora
Não importa se eu gritar

Meus amores não me enxergam
Eu sou um pontinho em dez mil
Eles olham tudo de cima
Nem notarão se alguém sumiu

Meus amores não me entendem
Vêm de outra realidade
Falam palavras diferentes das minhas
A vida fez essa maldade

Meus amores não ficarão por aqui
Eles dão a volta ao mundo
São amores de mais um bilhão de pessoas
Que assim como eu sentem o encanto de tudo

Meus amores não param
Eles dançam
Suas vozes deixam as caixas de som
Meus amores cantam

Meus amores não deixam de amar
Têm seus próprios amores
Amam a música e a dança
Embora tanto esforço os gere dores

Meus amores não irão me amar
Porque não provei a eles que existo
Tudo o que faço é intraduzível
Mas por que será que ainda insisto?
Pois meu amor por meus amores se faz um sofrido e belo infinito.

Amo todo mundo, ninguém e você

Deixei de amar uma pessoa só
Amo a todos demasiadamente
Assim como há dias em que não amo ninguém
Deito me perguntando se isso é coerente

Como seria a vida sem amor?
Há dias em que costumo sentir que já é
Mas certamente depois de horas de torpor em tristeza
Cederei à verdade de que o amor se mantém de pé

Pelo menos há quem me ame
Em algum lugar por aí
Sou um ser bom para levantar alguém
Assim como também posso fazer cair

Caia em mim
Ceda aos meus encantos
Em cada canto desse mundo
Há espaço para se enfiar sob meus panos

Te amo mais que a carne
Amo mirar teu sorriso
Melhor brilho para os meus olhos
Me faz assumir o risco

Risque qualquer outra pessoa de sua lista
Ria comigo até o fim
Ranja teus dentes enquanto me tem
Faça um riacho de mim

Depois que amanhecer
Levante e deixe um bilhete sobre a mesa
Diga como foi a dose
E deseje tomá-la novamente como se fosse a cura de qualquer doença.

O Vivo Está Morto

Perdi o amor há um ano e meio
Esse alguém não morreu
Foi culpa dos meus tropeços
Deve estar mais vivo do que eu

Sou ser errante e confesso
Mas o perdão sempre me pareceu necessário
Apesar de alguns males
Por que fez o contrário?

Todos os dias lembro de alguém
Mas esse alguém não existe mais
Fiz questão de quebrá-lo
E assim, ser a mesma pessoa, esse alguém não foi capaz

É como se quem eu amei tivesse morrido
A ferida o tornou frio comigo como o Alasca
Dá até um arrepio de lembrar
E assim, do que eu conhecia, só sobrou a casca.